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Marcha da Maconha
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terça-feira, 14 de junho de 2011

A erva, a culpa, a cura

Aproveito o lançamento do documentário “Quebrando o tabu”, sobre descriminalização das drogas, estrelando Fernando Henrique Cardoso, para fazer um depoimento-desabafo: um amigo californiano usa maconha com fim medicinal (possui até uma carteira de identificação para, se preciso for, provar que está legalizado).

Em seu país, o consumo terapêutico dessa droga é autorizado por lei. Numa conversa, descobri que a planta o curara de um grande problema que também tenho: o bruxismo.

Fiz o teste, dando duas tragadas num desses cigarros por algumas noites alternadas. Resultado: vi-me livre das dores com que convivo a cada manhã, livre de acordar no meio da noite com a cabeça latejando, livre de, em certos dias, sequer poder mastigar uma colher de pudim.

Pensando mais no futuro, veio-me ainda a esperança de talvez não mais ter que conviver com ameaças de surdez nospróximos anos; não me sentir na iminência de uma outra cirurgia para implante de osso; dar um basta na sensação de que engoli mais um pedacinho de metal; livrar-me de uma das minhas inúmeras placas usadas para dormir (tenho de todos os tipos: plástico, silicone, acrílico — todos os materiais,
modelagens, desenhos existentes no terrível escopo do bruxismo.

Não há meditação,ioga, homeopatia, marido, Rivotril, esporte, que amenizemo sofrimento provocado pelo travamento dos dentes, muito desgastados desde a pósadolescência.

Fiquei num grande estado de excitação: a cura estava ali, a meu alcance. Pedi a duas médicas uma declaração, um depoimento, atestando que preciso fazer uso dos benefícios dessa planta. Nada obtive: nenhuma delas está autorizada a fazê-lo. “Seria ilegal”, diz uma psicóloga que defende o uso dos cigarrinhos verdes para alguns pacientes(nas internas, que fique claro).

Ensina até quem vende a droga sem química, plantada e colhida na região fluminense. Maconha orgânica. Conversei também com um advogado. Ele me disse que poderia tentar, mas dificilmente conseguiríamos alguma coisa. O único resultado
positivo seria o de estimular o debate. Foi o que me impeliu a escrever este apelo.

Quero apenas o direito de dar duas tragadas num cigarro de maconha todas as noites, na minha cama, no meu quarto — apenas duas! —, sem precisar ir morar nos Estados Unidos, vivendo na minha cidade, no meu país, sem ter que me sentir uma contribuinte do tráfico e, por tabela, da violência. Não suportaria essa culpa, mesmo sabendo que é um argumento sujeito a vários questionamentos.

Duas tragadas. É tudo. Fazem me amolecer um pouco, nada mais. Não se trata de usar a
droga como quem o faz para “suportar melhor a existência”(já ouvi isso). Simplesmente, encontrei um remédio. Uma erva. Como outras, com fins medicinais, dependendo, sempre, da dosagem. Os índios fazem bom uso de todas elas, e
o limite é estabelecido por cada um de acordo com o conhecimento acumulado ao longo de milênios.

Não tenho interesse em nenhuma droga como droga, nem para o chamado uso recreativo (álcool aqui incluído); aliás, não suporto perder o controle, em nenhuma situação.

Nem na adolescência, quando, na minha fantasia, os baseados tinham o poder de trazer
inspiração, criatividade e ideias originais para escrever textos maravilhosos, da mesma forma como os roqueiros que eu conhecia faziam com suas músicas. Claro que na época experimentei maconha, como todos os jovens da minha idade.

Uma amiga insistia para que eu fumasse mais, mais e mais (em vez de aguardar, como se deve, que as primeiras tragadas façam efeito), resultando numa primeira experiência bastante penosa que terminou em vertigem e vômito.

Não me tornei usuária, mas tive, na ocasião, um sonho intenso, marcante. Eu fumava e começava a escrever freneticamente. Parava, analisava e concordava com todos os pensamentos que surgiam, não discordava de nada. Coisas banais ficavam importantes, coisas importantes ficavam banais, mas todas iam
passando. Por vezes eu abraçava as palavras, mas elas conseguiam fugir de mim quando eu menos esperava. As letras criavam disfarces: elas
estavam ali, mas não estavam. E nem sempre seguiam a ordem de que eu gostaria. As mais sinuosas se misturavam entre si na forma de colares gigantes, que iam de um país a outro, sem se deixarem molhar no mar ao atravessá-lo. Algumas só se
perdiam, levando com elas a coesão do pensamento. O que ia me restar, então?

E escrevia, relia os textos, as sensações, as paixões, as confissões, mas tudo se esvaía. Era mesmo o fim da minha lua de mel com as palavras. A morte era preferível.

O problema é meu ou do fumo?, pensava, no sonho, cheia de uma culpa injusta.
Ou seja, durante as décadas que se seguiram, minha relação com a maconha se resumiu a esse pesadelo. Até eu tomar conhecimento desse seu lado atenuante para meu desespero pessoal. O fato é que o meu sonho agora é bem outro. Quero
apenas isto que considero essencial: não ser privada do que para mim é um medicamento que me alivia o insuportável bruxismo. Quero
poder consumir as ervas que bem entender, assim como posso usar hortelã para um
suco, ou a arruda para “limpar” um ambiente, tranquilamente.

A sálvia anda difícil, segundo me disse a espiritualista Ana Lang, que vive na Gávea RJ. Não poder usá-las? “Arrenego”. Fiz questão de escrever a palavra por achar
que combina bem com uma camponesa como eu (fui criada em fazenda), acostumada a uma
relação de intimidade e respeito com todas as plantas e, apesar disso, sem o direito de usá-las como algo útil, essas dádivas.

Aliás, quando ouvi pela primeira vez a palavra maconha, era ainda uma criança. Foi
durante uma conversa entre meu pai e um senhor muito simples, candidato a vaqueiro.

Ao ver minha mãe nervosíssima, numa crise violenta de tosse, ele perguntou se não teria um pé de maconha ali por perto. E afirmou: “Se fizesse um chá, ela
se acalmaria e ficaria logo boa.”

Nunca soubemos se isso seria real. Voltando à atualidade, considero-me, de fato, uma
cidadã: trabalho muito, pago imposto, respeito o outro. Por que, então, no meu país me proíbem um remédio que me traria a paz ante um mal que me consome? Isso dito, deixo uma pergunta: entre o bruxismo e a culpa, o que faço eu?

Texto da Lu Lacerda, publicado no O Globo de domingo dia 12/06/2011.

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13 comentários:

artur disse...

muito bom o texto, casos assim agregam muito valor ao debate para a legalização

Otavio Wobeto disse...

Justamente para que compre o Rivotril, e depois de certo tempo, adquirindo resistencia, comprar outra coisa qualque feita pela industria.
O governo brasileiro trabalha para os paises que comandam os bancos mundiais. Vide o documentario "DOUTRINA DO CHOQUE". Esta-se proibindo cada vez mais as alternativas de auto-cura, auto-sustento e auto-suficiencia.

Continuemos a mudar esse mundo, para que possamos viver livres, no sentido amplo da expressao.

Otavio Wobeto

HrejWaltz disse...

ser ilegal nunca impediu ninguém.... nenhum tipo de censura pode realmente negar a existência de algo... Se realmente o consumo ajuda a violência... talvez o simples fato da violencia aumentar seja fator suficiente para que parem e pensem em maneiras de EFETIVAMENTE regular o produto, e no caso de não ajudar, o que é bem capaz no caso de somente uma droga e das mais baratas, não há culpa...
Independente da censura, continua sendo muito fácil arrumar maconha, isso se vc não plantar em casa e, assim, parar 100% do auxílio aos traficantes... nada difícil de conseguir tb...
O governo é reflexo do povo, mesmo que não pareça.... O povo tem medo das drogas, sente-se culpado, logo, o governo tb... Marginalizar o que não se conhece é simples e sempre foi o caminho escolhido.
Continue usando dos seus remédios ninguém nasceu para sofrer, muito menos por uma invenção humana recente como o governo...
Uma hora OU ele se curva OU ele nota que se não se curvar, vai aumentar os próprios problemas...

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto, e sinceramente, aproveite a vida. Remédio e vem da terra.

João Vitor disse...

Pois é, seu caso é mais um em muitos, eu mesmo tinha um problema terrivel com sono, comecei a fazer atividade fisica regularmente o que ajudou, mais foi com a ganja que minha qualidade de vida deu um salto fenomenal, fumo um antes de dormi e passo a noite toda tranquilo, sem os lapsos de sono que me perseguiam antes.

o lendario disse...

o que manda é seu bem estar comum, se for para seu bem entao use,parabens pelo texto e parabens ao nosso fabuloso e informativo diario da erva

Anônimo disse...

Acredito que culpa seja deixarmos de agir em busca do melhor para nós mesmos, por conta de um contexto histórico, que por questões políticas e econômicas foram privadas da população. A crítica se faz necessária no dia a dia, ainda mais em pleno século XXI. Uma organização, só por ser maior ou mais poderosa que o indivíduo, não pode ser considerada dona da verdade, até por sabermos, como citei anteriormente, que a sua verdade é regida por razões políticas e econômicas. Gostei do texto, mas não concordo com a necessidade de haver um questionamento, como a forma em que é concluído. Como iniciei o comentário, a culpa é se prejudicar por "verdades" que são repassadas de tempos em tempos, formando padrões e inibindo a reflexão do ser humano.
RSFalc.

Guiduran3 disse...

Bom, se você tiver certeza de que vamos vencer a batalhar a favor da descriminalização em muito breve, então espere. A culpa é horrível. No entanto, se você não sabe quando será a vez da maconha, então fique com o seu bem estar. O governo não pensa exatamente no bem estar quando age. Sua intensão não é prejudicar ninguem, e a maconha contribui para a violência assim como a carne que você come contribui para a exploração animal, para o desmatamento, o efeito estufa e nem por isso vc deixa de comer. Então, bons tragos e bons sonhos!!!

Anônimo disse...

Parabnes pelo texto redigido. Creio que o maior atraso de nosso país em relação a Canabis é a respeito de seu uso medicinal, que é indiscutível, visto no seu caso. Porém, o maior problema, como foi dito acima, é a indústria de remédios. Eu também já me indaguei da mesma questão, do financiamento do tráfico, e o quão bom seria plantar e cultivar a Canabis, assim como tenho um pé de manga, acerola, goiaba. Mas há a indústria bélica. Creio que assim como ha o tráfico de drgoas, há também a indústria de bebidas e cigarros, que por serem lícitos o toleram na sociedade, maqueando-se todo o processo e a realidade, de que são mais prejudiciais que a erva. A diferença é a hipocrisia, a taxação, as leis, que fazem com que a venda de drogas seja armada e não estudada. Creio que o primeiro passo seja mesmo o diálogo aberto com todos os jovens e adolescentes sobre assunto, ao invés de enconder a verdade. Tenho 21 anos e acredito que será em minha geração que será discriminalizada a Canabis!

Anônimo disse...

Eu estou procurando algum veículo informativo como um forum ou algo que eu possa comentar pois gostaria que alguem me exclarecerse uma dúvida minha: o quão perto está de algum debate significativo (que irá decidir o futuro da maconha no brasil) acontecer ? Ja tem algum marcado ? Eu só ouço falar em que o pessoal quer debater vai debater só que até agora não ouvi nenhuma noticia relacionada a isso

Anônimo disse...

Colaboração plausível

Anônimo disse...

Putz!muito bom o texto!eu sou usuário e também tenho bruxismo, acredito que não tão violento quanto o seu, mas reparei que depois que comecei a fumar com mais frequência parei de sentir tantas dores de cabeça que antes me assombravam!Hoje em dia tenho crises muito de vez em quando.

Anônimo disse...

"? Eu só ouço falar em que o pessoal quer debater vai debater só que até agora não ouvi nenhuma noticia relacionada a isso "

e pq o blog ta preocupado em mostrar receitinhas hardcoree

iAI VAO CENSURAR ESSE COMENT TB??????????????

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